domingo, 25 de agosto de 2013

Da maneira de plantar um oásis na cidade grande

De árvore em árvore, Francisco Arruda vai elaborando um oásis frente ao trânsito estressante e ao calor permanente de Fortaleza. Há uma década, ele planta cedros, ipês e mais sombras em praças e calçadas da Capital

Ana Mary C. Cavalcanteanamary@opovo.com.br
SARA MAIA
Francisco posa abraçado com o cedro, primeira árvore que plantou no Passeio Público. É o cartão-postal que vai mandar para os parentes do Rio de Janeiro
Chegou o tempo de colher os frutos e as sombras. O cedro cresceu mais do que o pai: era uma muda a bater na cintura e hoje se espalha pelo céu. A amoreira também vingou, assim como outras tantas árvores que o comerciante Francisco Bezerra Arruda, 60, plantou no Passeio Público, praça antiga do Centro de Fortaleza. “Inclusive, a praça está até mais bonita, depois que eu plantei!”, cuida. 

Da última década para cá, de quando trouxe a muda de cedro do próprio quintal, Francisco conta e contempla jasmins, ipês, trapiás, eucaliptos e o caçula flambloyant-de-flores-vermelhas (plantado há pouco tempo). “Já plantei umas 25 árvores”, diz, mandando buscar, inclusive, espécies de São Paulo e do Amazonas. “Plantei árvores na Praça da Estação, dos Leões, da Escola Normal, além do Passeio Público. Fora as árvores que já dei pro pessoal plantar nas calçadas”, semeia.

A história ganhou terreno quando o comerciante, indo a pé de casa para o trabalho, cruzava o Passeio “abandonado, ninguém ligava pra regar. E eu via as plantas muito maltratadas”. Mas a raiz dessa narrativa de delicadezas está fincada nas terras da infância, em Tauá (344,7 quilômetros de Fortaleza): “Lá, a gente ia pra casa dos meus avós, em Pedra Branca (distrito de Tauá), e era muito arborizado... Eu subia no juazeiro pra tirar o juá; em pitombeira, pra tirar as pitombas. Subia naquelas árvores nativas, de frutas silvestres”.

Passeio Público
Quando o pai veio embora para Fortaleza, na década de 1960, “a primeira vista” do menino sertanejo foi o Passeio Público, um mar de árvores no meio dos prédios e do trânsito do Centro. “Foi a praça mais bonita que eu achei!”, admira ainda hoje. “Porque aqui é um oásis na cidade. Um trânsito louco desses (aponta para a rua Dr. João Moreira, que margeia a praça), quando a gente vem pra cá, se sente é bem”, respira.

O comerciante tem o hábito – e o prazer – de se sentar sob as árvores e fazer a meditação “shinsokan” (da Seicho-No-Ie). “Você faz para harmonizar o ambiente, para transformar o negativo em positivo”, explica.

Contra foices e serras que matam o verde restante da cidade, as mãos de Francisco se juntam para acarinhar o meio ambiente e preencher os vazios do lugar. “As árvores têm sensibilidade”, acredita. Plantá-las, para ele, é também uma forma de agradecer a infância adoçada por pitombeiras. E é ainda uma prática que embeleza a cidade, “tem a função de melhorar o clima, purificar o ar... Qual a beleza que existe no deserto? Aí, você vai lá na frente e vê um oásis. O deserto, em si, não tem beleza nenhuma. Eu considero aqui um oásis da cidade”.

Oração
Dia sim, dia não, ele volta ao Passeio Público e faz sua oração acolhido pelas folhas e flores que ajudou a nascer. “Não me acho o dono das árvores, mas é como se eu fosse um pai para elas. As primeiras mudas que plantei já estão árvores grandes”, orgulha-se.

Com adubo e afeto, Francisco ainda não viu morrer nenhuma árvore que plantou. “Acho que tenho mão boa... Também vai o sentimento da pessoa. Enquanto tem pessoa que vê uma planta e faz é quebrar, eu sou o contrário: gosto de construir. E acho que, no mundo espiritual, é assim: um local muito arborizado, muita flor. É só o belo”, aproxima-se.

Onde

ENTENDA A NOTÍCIA

Boa parte das árvores que semeia pela cidade, Francisco planta no Passeio Público. A construção dessa praça teve início na segunda metade do século XIX. O lugar, histórico por natureza, expõe um baobá de 1910 e já foi recanto da alta classe fortalezense, de prostitutas e de marginais. Ganhou vida nova a partir de 2007, com uma restauração.

Saiba mais

A Secretaria do Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) coordena o Programa de Adoção de Praças e Áreas Verdes.
 
Lançado em março deste ano, o programa estimula o cuidado de espaços públicos por empresas, associações, cidadãos.
 
“A primeira etapa para a adoção de um espaço verde é a preparação da Carta de Intenção, que deve ser apresentada à Secretaria Regional específica, contendo informações sobre o local de interesse e documentação necessária.A partir disso, o munícipe aguarda ser chamado para assinar o Termo de Cooperação”, explica a assessoria de imprensa da Seuma.
 
Quem deseja plantar em áreas públicas, orienta a Seuma, deve procurar a Secretaria Regional da região. Engenheiros agrônomos ou outros especialistas podem indicar as espécies adequadas e explicar como fazer o plantio.

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